Uma Modesta Proposta Para A Isenção Fiscal Das Igrejas
Os
jornais noticiam que deputados ligados a Igrejas Evangélicas estão
propondo que todas as Igrejas sejam isentas de todos os tipos de
impostos cobrados no Brasil. Alegam que somente estão regulando um
artigo da Constituição e que isto também beneficiará a Igreja
Católica.
A
tristeza de envelhecer mantendo a memória é que lembramos das
tristezas, as públicas e as privadas. Eu já era adulto quando a
Constituinte foi realizada (em 1988, pessoas de 22 anos eram
adultas). Recordando-me dos debates e das gentes que fizeram a nossa
Carta Magna, é bem provável que esta contenha semelhante artigo.
Para
que não me acusem de preconceito (“é contra porque é marxista”),
tenho uma sugestão para aperfeiçoar o projeto.
Caro
leitor, é sempre bom citar um
pensador francês, para dar um intelectual ao texto. Assim,
para demonstrar falsa cultura, cito
Durkheim. O sociólogo francês
mostrou que toda instituição social tem uma ou mais funções. Se
não as tiver, tende a desaparecer. Logo, religião tem função
social. E vou além: deve haver alguma vantagem evolutiva em ter fé,
seja esta depositada em uma religião oficial, em um partido
político, em uma torcida organizada de futebol ou, até, na impoluta
Universidade de São Paulo (a
fé é minha e eu a coloco onde quiser).
Logo, reconheço que uma
Igreja tem função social.
Quem
se dedica à missão pastoral quer salvar almas. Não está nisso
para ganhar dinheiro ou buscar status ou amaciar a carne, que já é
fraca. Mas também é óbvio ao observador isento que caridade custa
caro. Estão aí essas ONGs transnacionais que não me deixam mentir.
Custa tão caro que muitas dependem do Estado. Deveriam ser OMGs,
Organizações Meio Governamentais. Se com organizações laicas isto
acontece, por que não com as religiosas? Então, se aceitamos dar
dinheiro público para organizações privadas fazerem o “Bem”,
devemos aceitar que organizações religiosas
também recebam o meu, o seu,
o nosso dinheiro dos impostos. Por
favor, notem que não se trata de preconceito com o lucro ou com o
mercado (a mais-valia só se realiza no mercado. Não há exploração,
estritamente, se não há mercado). Somente se considerarmos que há
um mercado para religião, poderíamos falar em “exploração”,
no sentido marxista do termo. Mas, neste caso, pela própria
definição que a maioria das pessoas
atribui a religião, quem prega para lucrar não é religioso.
E os deputados-pastores são pastores, correto?
Pois
bem, vamos à modesta
proposta: sugiro que todas as Igrejas
sejam isentas de todos os impostos. As pessoas precisam de ajuda,
inclusive espiritual, e muitas são pobres demais para receber o que
merecem. Se há pastores dedicados a isso, que financiemos esses bons
samaritanos com o nosso dinheiro dos impostos.
Mas,
lembrando que ninguém está nisso por dinheiro, proponho um teto: o
ganho dos pastores não pode exceder o teto do funcionalismo público
federal, ou seja, o salário de um ministro do Superior Tribunal
Federal.
Tudo
o que for arrecadado a mais e que supere as despesas da Igreja local
(luz, água, transporte etc.), deverá ser automaticamente endereçado
às escolas públicas e aos postos de saúde mais próximos da Igreja
em questão. Essa doação não poderá ser gasta nos salários dos
funcionários públicos.
Para
garantir a lisura da medida, cada Igreja deverá manter um site
aberto ao público, com o registro de todas as doações, os seus
gastos e o que foi destinado para escolas e postos de saúde. Os
órgãos públicos que recebessem essas doações deveriam fazer o
mesmo. Transparência é a alma do negócio, com o perdão do
trocadilho.
Talvez
isto até aumente a arrecadação das Igrejas, além de aproximar a
comunidade de suas escolas públicas e dos postos de saúde do
bairro. Quem sabe se muitos fiéis não passarão a doar tempo para
ajudar de alguma forma essas instituições. Farão bem à alma e,
também, à comunidade.
Imagino
tratar-se de uma proposta irrecusável, pois todos ganhamos. As
pessoas que dependem de serviços públicos essenciais, os ateus e
agnósticos do país que não desejam doar seu dinheiro a nenhuma
Igreja e, principalmente, as pessoas religiosas, que colaborarão
para que os necessitados da sua área recebam o que merecem. Que
pastor recusaria uma sugestão supimpa como esta, perdoem-me pela
imodéstia?
Já
posso prever a recusa dos defensores da isenção: se o Estado é
laico e as Igrejas, entidades particulares, o poder público não
pode interferir na forma como o dinheiro arrecadado é gasto. Seria
como se os pastores-deputados dissessem: “Oh,
Senhor, dai-me a frugalidade, mas não agora” (Creio
que Santo Agostinho me perdoará por esta paráfrase). Opa,
opa, opa! Alto lá, que o santo é de barro! O
dinheiro dos impostos é público. Quem deseja o bônus deve arcar
com o ônus. Se o dinheiro é público, nada mais normal do que haja
regras legais e de
transparência para o seu
gasto. Ou não?
Talvez
a religião não seja o ópio do povo, mas desconfio que o dinheiro é
o deleite desses pastores-deputados.
São
Paulo, 14 de fevereiro de 2020.
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