Como É O Relatório De Uma Pesquisa De Verdade
Se você está aqui, é porque precisa escrever um relatório de pesquisa. Alguém lhe recomendou este texto, ou ao menos é o que eu desejo que tenha acontecido. Talvez tenha sido eu mesmo, já que leciono uma disciplina de pesquisa na graduação.
Ok, então vamos à receita do bolo.
Qualquer relatório de pesquisa precisa descrever uma… Pesquisa! O mundo não é cheio de coincidências? O problema é que a maioria das pessoas não sabe o que é uma pesquisa, não sabe escrever ou ambos.
Vamos começar pelo texto.
Eu aprendi pontuação à antiga: esta deve indicar as pausas na fala, facilitar a respiração e ajudar na compreensão do texto. Um teste simples para saber se você usa corretamente a pontuação é ler em voz alta o que escreveu. Se você não consegue ler porque lhe falta fôlego ou porque a fala se torna incompreensível, então seu texto está ruim. É simples assim. Isto não significa escrever como você fala, porque quando falamos, nós gesticulamos, temos expressões faciais etc. Um texto deve ser autoexplicativo. Alguns autores usam itálicos, palavras grifadas, itemização ou qualquer outro recurso para facilitar a compreensão do leitor. Se precisar, use esses recursos. Mas um bom texto não precisa de nada disso. Um bom texto é uma conversa com um velho amigo, que está lhe contando uma história. Qual é a história do seu relatório? É a história da sua pesquisa.
Há quase meio século, quando eu tive aulas de redação de verdade, após ser alfabetizado, eu me lembro de ser ensinado que qualquer texto não ficcional deve responder às questões de quem, o quê, quando, como e onde. Quer dizer, deve ser como uma matéria de jornal (ou como eram nos jornais de antigamente). Isto não signfica ser isento (e atualmente os jornais estão longe de sê-lo). Mas implica ser honesto: você tem um lado e vai defendê-lo, com fatos, dados e argumentos. E, claro, usará um pouco de retórica (pode parecer estranho, mas até matemática é retórica).
Textos têm começo, meio e fim, lembra-se? Perdoe-me se lhe digo obviedades. Acredite-me: há pessoas na sua sala de aula que não sabem disso (professores incluídos). E tem mais: lembra-se daquelas regras de gramática, que eram usadas como forma de tortura no ensino secundário (mas não tanto quanto exercícios de matemática)? Pois bem, isso também conta, mas de outra forma: não é preciso seguir todas ao pé da letra, pode quebrá-las também, desde que seja em nome do melhor entendimento do texto. Mas não dá para ignorar que frases diretas são melhores, que é preciso se lembrar da ordem “sujeito-verbo-objeto”, com o sujeito praticando a ação descrita no verbo que modifica o objeto. Que frases curtas são melhores, que usar a vírgula requer conhecimento etc. Use adjetivos e advérbios com moderação. Como a exatidão é fundamental, evite “muito”, “pouco” e qualquer expressão imprecisa, especialmente se sua pesquisa contem resultados estatísticos. Use os dados que você coletou! Repetição de palavras apenas se não houver sinônimos. Por mais paradoxal que lhe pareça, a prosa seca tem o dom de inebriar o leitor.
Não modifique o seu estilo, desde que você tenha um. Não tente ser quem você não é. Se escrever não é o seu talento natural, então escreva da forma mais simples e direta possível. Evite gírias, evite estrangeirismos, ignore expressões batidas ou da moda, elimine tudo aquilo que o seu leitor não deve ser obrigado a conhecer para compreender o seu texto. E, pelamordedeus, não use “quebrar paradigmas”, “a nível de”, “republicano” ou qualquer outra muleta verbal de quem não tem cultura e quer se fazer de intelectual.
Hmmm, fiquei pensando: como um professor de marketing pode recomendar “evite estrangeirismos” sem ficar corado? Veja, não se trata de xenofobia. Longe de mim lhe sugerir que use “ludopédio” ao invés de futebol. Mas a língua portuguesa tem três vantagens: é a sua língua de origem, é precisa e é flexível. Quando usamos uma língua que não a nossa, sempre nos deparamos com dois problemas: o uso de falsos cognatos e as expressões idiomáticas. Os primeiros são facilmente aprendidos desde que se use regularmente a língua em questão. Já as expressões idiomáticas são mais difíceis, porque dependem também de fatores culturais. E cultura estrangeira não é algo que se apreenda facilmente. Daí que é nessas expressões que mais facilmente traímos que somos estrangeiros. Não se trata de demonizar o inglês, até porque esta é a língua franca atual. Apenas tome cuidado redobrado, para não cometer deslizes evitáveis.
E a ABNT?, perguntar-me-á você. Bom, eu tenho vontade de parafrasear a Bette Davis em “A Malvada”: ponha as regras da ABNT onde você achar que o seu coração está. Mas eu não posso fazer isso, já que um professor não deve responder dessa forma grosseira. Então, sucintamente: esqueça a ABNT, se a sua redação for boa. Caso contrário, use-a como um guia, e não um livro sagrado. Use esta regra, sempre: o formato é função do conteúdo. Seu trabalho é facilitar a vida do leitor.
Acadêmicos desdenham de textos “fáceis”, mas escrever um desses leva apenas 1 hora e 20 anos. Uma hora escrevendo e vinte anos de leituras, experiências e rascunhos. Como hoje em dia não há mais polímatas, escrever fácil está cada vez mais difícil.
Certo, agora vamos à pesquisa. Qual foi o trabalho que você realizou? Há muitos tipos de pesquisa: revisões bibliográficas, entrevistas, experimentos em laboratório. O que une esses trabalhos é o método. Supostamente, sempre será possível replicar uma pesquisa científica, desde que se saiba como foi feita. Explicar como foi feito é o que se chama de metodologia. Assim, seu relatório final deverá ter uma parte explicando como a pesquisa foi feita. Imagine isso como uma receita de bolo: se alguém quiser fazer um bolo igual ao seu, deverá seguir a mesma receita.
Mas você não saiu por aí fazendo uma pesquisa. Esta provavelmente teve uma motivação. Sim, eu sei: você fez isso porque é o trabalho final da disciplina, porque você quer um título de mestre ou doutor, porque precisa de um papel comprovando que você sabe isso e outros que tais. Em um país que valoriza mais um papel dizendo quem você seria do que a pessoa que você realmente é, isso faz sentido. Mas vamos supor, só para eu não parar por aqui, que você é uma pessoa curiosa e quer respostas para alguma dúvida sua, uma daquelas bem fundamentais, como “por que alguém torce para o Juventus?” ou “por que a pipoca estoura?” ou qualquer outra pergunta que mereça a sua atenção. Por que você quer saber isso? Como você se perguntou isso um dia? Responder a isso é a introdução do seu trabalho.
Talvez você seja a pessoa mais inteligente do mundo e consiga responder a isso mentalmente, sentada na sala da sua casa, ouvindo música, ou vendo televisão, ou digitando no celular ou até mesmo fazendo tudo isso ao mesmo tempo. Parabéns, você é um gênio ou um maluco. A maioria de nós temos de estudar para responder a alguma pergunta relevante. Então, o primeiro passo de uma pesquisa é ler o que outros já fizeram tentando resolver o problema. Bunda-cadeira/hora é a métrica usada. Pode apostar: qualquer pesquisa com resultado interessantes apresenta centenas de BC/H. Ou, para as pessoas da sua geração: google-sofá/hora. Mas, pelo menos, use o google acadêmico.
Quando você faz esse tipo de pesquisa, descobre que há chance de outras pessoas já terem se feito a mesma pergunta e publicado um trabalho sobre isso. Ler esses textos vai lhe mostrar que talvez a sua pergunta já tenha uma resposta. Nessa hora, você se pergunta: “Ah, meu Deus! E agora, o que vai ser de mim? E do meu TCC?” Vamos por partes: seu TCC é apenas mais um trabalho de graduação, ok? Se você e ou o seu orientador pensam que este será o trabalho da sua vida, está na hora de vocês reavaliarem as suas prioridades neste mundo.
As suas leituras devem resultar em um rascunho com um resumo desses textos. Naturalmente, não se trata de uma coleção de fichamentos. Deve ser um texto que resuma e ligue os textos lidos, seja pelo desenvolvimento do tema, seja pela ordem cronológica das publicações consultadas. Isto dará a você e a seu futuro leitor uma noção do estado da arte em relação ao tema pesquisado e quem descobriu o quê, bem como se ainda falta algo a ser feito. Perceba que é necessário indicar a data original em que o trabalho citado foi publicado. Não se trata da data da tradução ou da edição, porque isto irá confundir o leitor (e é aqui que a ABNT é o pior formato possível).
Se tudo já foi descoberto (é improvável, mas pode acontecer), você pode escolher repetir algum experimento ou pesquisa para conferir os resultados já encontrados. Não há nada demais nisso. Ou você pode fazer um novo experimento, usando outra metodologia, para checar se o resultado será o mesmo. Viu? Seu mundo não acabou.
Há um fetichismo com novas pesquisas de campo ou laboratório, porque supostamente isto representaria o ineditismo da pesquisa. Isto é falso. Realizar pela centésima vez o mesmo experimento com a mesma metodologia não é inédito apenas porque neste caso estamos entrevistando homens paulistanos ou envenenando ratos siberianos. O falso ineditismo é um mito acadêmico bastante cultivado no mundo e feito com refinamentos que beiram a arte no Brasil. Não discutirei isto aqui, mas desde que a vida universitária tornou-se meio de vida para milhões de pessoas ao redor do mundo, é necessário justificar o salário pago com “pesquisa relevante”. Qualquer sociólogo lhe explicará como isto funciona (refiro-me a um Sociólogo de verdade, não um desses que falam uma hora para dizer vinte minutos, se é que você me entende).
Após fazer esse levantamento bibliográfico (a leitura dos textos que você descobriu sobre o seu tema de pesquisa), você já deve ter uma ideia da resposta à sua pergunta existencial, aquela que lhe motivou a realizar a pesquisa. Essa resposta é o que chamamos de hipótese.
O objetivo da pesquisa é mostrar que sua hipótese está errada. Quem faz pesquisa para confirmar a hipótese, não está fazendo pesquisa de verdade. É um burocrata da ciência, ansioso por receber um título ou uma promoção. Ou, pior: alguém que deseja que a realidade seja como a sua ideologia prega ou como os seus desejos. Se este é o seu caso, vale a piada sobre o cinema novo: uma ideia na cabeça, uma câmera na mão e uma porcaria de filme. Troque filme por “relatório de pesquisa” e será o que você fez.
Mas você não é esse tipo de pessoa. Você é uma pessoa curiosa devotada à busca da verdade. Não, não vou discutir o que é “verdade”, pois isto não é um tratado de filosofia. Tampouco vou dizer que a verdade e a realidade não existem, que são uma invenção das “epistemologias eurocêntricas” (sic) (juro por tudo o que é mais sagrado: uma colega de Universidade usou esta expressão em um e-mail endereçado a todos, to-dos, os colegas da Escola. Eu sempre me espanto com a capacidade da ignorância de fazer publicidade de si mesma).
Portanto, lembre-se: a verdadeira pesquisa é tentar descobrir se a nossa hipótese está errada.
A ferramenta mais comum para fazer isso é a estatística. Mesmo que seja apenas calcular a frequência do evento estudado (quantas pessoas compram determinado produto?). Os tipos de estatísticas utilizados dependem do tipo de pesquisa, do grau de precisão desejado etc. Mas não se torne um escravo da estatística (é neste ponto do debate que pseudocientistas rolam os olhos. Eles estão mais preocupados com as ferramentas do que com a pesquisa, mas essa é outra história). Como matemática em geral é algo que intimida a maioria das pessoas, é fácil impressionar com cálculos complicados e, talvez, gráficos bonitos. Mas isto seria matemágica, um truque para enganar a audiência. Não há estatística sofisticada que salve pesquisas mal planejadas. Mas o contrário é verdadeiro.
Um dos melhores exemplos de estatísticas simples que geraram um resultado importante (em termos de vidas salvas) é o final da epidemia de cólera em Londres em 1854. O médico John Snow investigou o que todos os pacientes tinham em comum e descobriu que a maioria havia consumido água de uma bomba d’água específica. (Não, não é o John Snow da série de TV.) Tão logo a bomba foi lacrada, as mortes diminuíram bruscamente. Essa história é contada em detalhes no livro “O Mapa Fantasma”, de Steven Johnson (sim, eu sei: sempre haverá a wikipedia para resumir). O curioso é que testes estatísticos mais modernos não mostraram uma correlação direta entre a bomba e as mortes.
Aqui, é importante ressaltar que não estou dizendo para não usar estatística. Geralmente, quem faz isto é ideólogo, sonhador ou maluco. Ou está como a raposa da fábula: desdenha porque não pode alcançar as uvas.
Como realizar a pesquisa propriamente dita está descrito em inúmeros manuais, livros etc. Use aquele indicado pelo seu orientador ou professor. Supostamente, talvez você já tenha frequentado uma disciplina de metodologia da pesquisa (uma séria, não aquelas que são estatística básica disfarçada).
Portanto, até este momento, você provavelmente já escreveu alguns rascunhos: uma explicação de porque você se interessou pelo tema, um resumo de tudo que já foi escrito sobre esse tema, como você planeja fazer a sua pesquisa e, finalmente, os dados levantados na sua empreitada.
Agora, você deve cotejar o resultado obtido no trabalho de campo e ou laboratório com o que os outros autores disseram que você encontraria. Se o seu resultado for diferente de tudo já encontrado, revise cuidadosamente a sua pesquisa e os seus resultados. Se, ainda assim, você estiver certo do que fez, parabéns! Talvez você tenha feito uma descoberta interessante. Talvez você seja doido.
Finalmente, agora vamos juntar tudo: texto e pesquisa. Se você foi cuidadoso, fez anotações e já escreveu partes do seu trabalho. A sua primeira tarefa é juntar tudo em um texto único. Leia com atenção: há contradições lógicas nas partes reunidas? Se sim, este é o momento de corrigi-las. A última parte do seu texto é uma conclusão com um resumo do que foi feito e qual é a contribuição que você julga mais importante para o tema. Inclua uma bibliografia ao final.
Quando eu me refiro à bibliografia, refiro-me àquela que você efetivamente consultou, e não aos vários textos que você encontrou ou que aparecem na primeira página de uma busca feita no google acadêmico. O tamanho da bibliografia é outro fetiche acadêmico comum por estas plagas e por outras, também. Em alguns casos, trata-se do efeito Mateus (procure por Robert Merton no google e você entenderá). Em outros, é apenas para impressionar os leitores desavisados. Argumento de autoridade é algo que jamais perecerá na Academia. Uma curta bibliografia lida é mais eficiente para a sua pesquisa do que uma grande e ignorada. Por isso, é importante você aprender o que é apud e usar essa expressão sempre que for necessário. Mas eu sei que esta é outra luta perdida. Os falsos acadêmicos valorizam as falsas bibliografias.
Verifique os erros de digitação e gramática. Os softwares redatores de texto modernos têm corretores automáticos. Use-os. Se o trabalho foi feito em grupo, a melhor forma de encontrar erros é dividir as tarefas: uma pessoa faz a redação final e outra lê o texto, procurando os erros.
Você já escreveu seu texto. Agora basta formatá-lo.
Há vários padrões de formatação. Se você consultar o site de uma revista científica, verá que há uma página com instruções para autores. Nessas instruções haverá o número máximo de palavras ou páginas, a formatação do texto, se há alguma seção obrigatória, como a biblografia deve ser apresentada, como são dispostas as figuras e as notas de rodapé e coisas assim. Claro, algumas seguem a ABNT, eu sei. Contudo, as mais sérias geralmente seguem algum padrão internacional.
Se o trabalho for para uma disciplina de faculdade, use a formatação recomendada pelo professor. Caso o texto seja para algum artigo, siga as instruções do periódico. Teses & Dissertações geralmente devem seguir o padrão recomendado pela Universidade. Às vezes, o orientador não faz questão disso. Lembre-se que os formatos são usados para possibilitar julgar um texto, compará-lo com outros semelhantes e decidir qual é o melhor em termos acadêmicos.
Pronto, você agora já tem um relatório de uma verdadeira pesquisa.
Comentários
Postar um comentário