O Piloto Estava Na Maca Que Passou Por Mim! (From Whatsapp With Love)

O celular é a coleira eletrônica. Não importa onde você esteja ou vá e logo alguém lhe encontrará, pelo maldito aparelhinho. Antes, ao menos havia o custo das ligações (economista sempre pensa em custo). Agora, com esses aplicativos de conversa instantânea, até o custo foi reduzido. Eu nunca me importei em ficar sozinho, portanto sempre estranhei essa gente que fica online todo o tempo, procurando alguém para conversar, enviar e receber textos, fotos e vídeos e até mesmo enviar fotos do que está comendo. Telefone, para mim, serve apenas para breves conversas, para marcar um encontro, para uma emergência. É, eu sou velho e off-line e, talvez, ranzinza.

Todavia, logo vi uma maior utilidade no aparelho, quando o celular deixou de ser somente telefone para se tornar um “smartphone” (adoro esses antropomorfismos, pois inteligentes são os engenheiros que criaram o aparelho e os marqueteiros, que nos venderam o conceito). Jogar paciência ou carregar e ler vários livros eletrônicos ou mesmo checar as últimas notícias pareceu-me mais útil do que conversar ou enviar mensagens de texto. É, talvez eu não seja tão velho e ranzinza, mas apenas anacrônico.

Nunca pensei em fazer “comunicação instantânea” ou seja lá do que chamem o uso de aplicativos de mensagens para longas conversas ou troca de textos. Minha vida é tão sem emoção para entreter alguém que somente se eu desejasse assassinar de tédio enviaria textos reportando meu cotidiano. Hummm, essa é uma idéia para se guardar. Mas finalmente esse dia chegou. E eu nem estava sozinho, pois minha esposa estava comigo (e pode confirmar tudo o que se segue, porque ela não é mentirosa, eu também não, e tampouco exagerada, eu sou um pouco, mas para efeito dramático, porque há um professor de cursinho dentro de mim que surge nas horas mais incômodas, reconheço).

Tudo começou em Washington, e nem foi culpa da CIA. Minha esposa e eu estávamos no aeroporto John F. Dulles esperando o avião que nos levaria daquela cidade para Boston, onde ela teria uma reunião de trabalho e depois aproveitaríamos o resto da semana para passear. Afinal, eram as nossas férias, apesar da tal reunião.

Depois de horas de vôo, conexões etc. estávamos felizes em nos sentarmos e aguardar a última conexão de nossa viagem. Minha esposa resolveu checar seu e-mail, para confirmar a hora da tal reunião (fuso horário parece simples quando não é necessário se preocupar com a agenda). Para passar o tempo, resolvi ler notícias no celular. Logo, um aviso piscou na tela. Uma amiga me perguntava se já havíamos chegado a Boston. Respondi que não, ela me disse que estava no final de um dia de trabalho (fuso horário etc.). Foi quando a tragédia começou a acontecer e eu, sem perceber, enviei uma mensagem contando o ocorrido. No calor do momento, ela me pediu: “conte-me mais”. E foi assim, meio por brincadeira, que entrei no mundo das mensagens instantâneas. O mais curioso é que ela realmente se interessou pela história e foi-me fazendo perguntas. E eu fui respondendo e descrevendo os eventos, com minha esposa lendo tudo ao meu lado e fazendo algumas observações. Não, meu cotidiano entendiante não é mortífero, vamos esquecer essa ideia. 

Ao final da aventura, estava com os olhos vermelhos e com as juntas dos dedos doloridas. Escrever em celular é sofrer mais do que monge copista. E ainda tem esse maldito corretor, que corrige o certo e acrescenta o errado. Ao menos descobri que o cronista que já fui não foi morto pelo economista que sou. Minha primeira mensagem à amiga distante foi:

Você já viu o piloto do seu vôo passar por você em uma maca?

Ela respondeu com uma expressão de descrédito. Intrépido, eu prossegui narrando os acontecimentos:

É assim: você chega no aeroporto, passa pela burocracia e encontra o seu portão de embarque.

Você calmamente se senta numa das cadeiras junto ao portão e vê seu avião ser ligado ao finger. “Finger”?

O finger do portão, não um dos meus dedos.

Você está com aquele orgulho besta pelo jato ser Embraer.

E você nem mesmo é acionista da empresa ou tem um primo distante trabalhando ali.

Você está com o celular desligado e discretamente observa os outros passageiros. Afinal, você é um cientista social e nunca desliga.

(Será que a diferença entre o antropólogo e a senhorinha na janela das pequenas cidades do interior é o diploma? Se ambos usam o mesmo método de “observação participante” e ambos têm “bolsa” e nenhum emprego…)

E você é bruscamente interrompido dos seus devaneios pela realidade. Os passageiros estão deixando o avião. O sistema de som avisa que o seu embarque acontecerá em breve. E você se pergunta se o Trump não está certo, porque o inglês de quem está lendo os avisos é pior do que o seu Gurgel BR800 (sim, você cometeu loucuras na juventude).

Surge uma maca. Uma maca?

Sim. Uma maca enorme, cheia de monitores e fios, empurrada por um sujeito igualmente grande, acompanhado por outras duas pessoas que parecem médicos, exceto pelo tamanho extralarge.

(No Brasil os médicos são menores. Alguns são gordos, outros são altos. Estes aqui são grandes em todos os sentidos.)

A maca desaparece no corredor do embarque.

Você e sua esposa especulam sobre o que aconteceu. De repente, você não está mais tão orgulhoso da indústria nacional. E seu lado egoísta se pergunta: será que alguém vomitou fedido no avião? Empresas low cost não perderiam tempo higienizando o avião. Make America Great Again And Clean The Jets!

E aí ressurge a maca, com o piloto, o piloto!, deitado.

Como você não consegue vê-lo direito, parece que está bem. Ok, ele tem um braço imobilizado. Ele conversa com a paramédica. O paramédico maior não é paramédico, mas sim um desses maqueiros gordos de estádio de futebol no interior. Make The Maqueiros Small Again!

A paramédica liga os fios de um monitor ao peito do piloto, dá algumas instruções ao outro paramédico, prende o cinto de segurança da maca ao piloto. O megamaqueiro começa a empurrar o piloto, os monitores e a maca. Agora entendi porque ele é grande.
Será que há cota para os micromaqueiros?

A maca começa a ser virada em nossa direção.

Flávia & eu nos inclinamos para ver o outro braço do piloto.
Parece um balé: a maca gira e nós balançamos. O piloto tem o cabelo somente nas laterais. O topo de sua cabeça está bem avermelhado.

Estamos quase frente a frente…

Mas espere um pouco!

Ele não está com o braço imobilizado. O piloto está sorrindo!
Gente, na boa, sem preconceito: será que ele é brasileiro e está fingindo? Será que ele decidiu ver a amante em Washington e inventou uma folga?

A maca se vai. Flávia & eu nos olhamos. O resto é silêncio.

Ou quase.

O sujeito que fala inglês nos avisa pelo sistema de som que haverá um pequeno atraso na partida do nosso vôo.

O pesquisador que mora em mim se pergunta: defina “pequeno”? Depois do petrolão, do mensalão, do tríplex do Lula e do BNDES do Joesley, estou com dificuldade em compreender a ordem de grandeza das coisas.

Nesse momento, interrompi a transmissão. Já estávamos sentados há muito. Assim, resolvemos andar um pouco pelo longo corredor que liga os portões de embarques nacionais e algumas lojas. É interessante reparar como os preços são semelhantes aos brasileiros, exceto pelo detalhe excruciante: a taxa de câmbio. Quer dizer, tudo parece igual, mas na verdade é o triplo. O Brasil ainda é o país do futuro.

Voltamos para o nosso banco, olhamos em volta e todos os outros passageiros pareciam resignados. Entardecer de domingo em corredor de aeroporto não tem poesia. Minha esposa me lembrou da nossa amiga. Havia várias mensagens no celular. Que  falta de educação, a minha, pouco versado na etiqueta eletrônica. Desligar sem dar um tchau. Make Friends Polite Again!

“Vocês ainda estão aí?”

“Aconteceu alguma coisa?”

“O piloto morreu?”

“Oi?”

Digitei um “está tudo bem”, mas recebi o silêncio. Flávia me mostrou que nossa amiga não estava mais online. Aprendi que á um sinalzinho na tela do aplicativo. Se pudesse escolher, eu deixaria uma caveira com ossos cruzados como o sinal de offline. É um jeito interessante de se fazer de morto. Com a vantagem de que pode ser para sempre, se não houver risco de encontrar a pessoa no mundo real. E se encontrar, sempre se pode culpar o administrador do aplicativo ou e-mail. Make friends hypocrite again

A voz que falava inglês nos avisou que haveria um novo atraso. Nosso piloto não voltaria e a companhia providenciara outro, vindo de Boston, que ironia. Nosso vôo sofreu um novo atraso, de mais 2h00 ou, em medidas uspianas, quase dois minutinhos. Houve uma espécie de suspiro coletivo de todos os passageiros presentes. Alguns afundaram ainda mais nos sofás do aeroporto. Duas adolescentes se levantaram e começaram a procurar alguma tomada para carregar seus celulares. Agora tenho certeza: o celular é o vício solitário da nova geração.

Há várias atividades para se fazer em um aeroporto. A maioria é lícita, uma parte é nojenta. Convidei minha esposa a me acompanhar na entrega ao vício e ela aceitou! Foi o meu momento Jack Lemmon arrastando Lee Remick em “Vício Maldito” (essa é do temo em que os filmes eram feitos por adultos, de adultos e para adultos). No aeroporto havia um lugar onde o sorvete era self-service. Tive de me controlar. Nas mesas ao nosso redor, famílias com e sem crianças, casais jovens e velhos e dois enormes funcionários do aeroporto. Comecei a me perguntar se haveria um tamanho mínimo para se trabalhar ali.

Súbito, passaram por nós um conjunto de jogadoras de basquete neozolandesas, no seu uniforme preto. Que estranho! Para quem vem de uma família de portugueses baixinhos, qualquer animal com mais de 1,80m. e pelagem amarela é girafa. Minha esposa, essa mulher paciente que me ama, explicou: eram aeromoças alemãs. Fomos interrompidos por um som fisiológico: um barulhento arroto dado por um dos funcionários que estavam na mesa mais próxima do rebanho de girafas, digo, aeromoças alemãs, que saíram em disparada com seus copos de café para viagem. Ei, Mr. Trump, Make The Burps Mute Again!

Também batemos em retirada do lugar.

Mal chegamos ao nosso portão e outra pessoa fez o aviso, uma pessoa com uma dicção melhor e uma fala mais compreensível, ao menos para mim, que não sou nenhum Joyce ou Shaw (e mentalmente anotei: nunca mais fazer piadas com fonoaudiólogos, eles são úteis): a companhia aérea gentilmente nos oferecia salgadinhos, doces, refrigerantes, chás e café, tudo posto em cima de uma mesa perto da janela. Atrás desta, inerte e iluminado pelas luzes do aeroporto, jazia o avião despilotado. Ignoro os motivos, mas poucos se animaram com a notícia. Eu mesmo caminhei até o local mais por curiosidade antropológica do que por fome ou um desejo gastronômico incontrolável. Salgadinhos baratos não são nenhum jantar de gala, mas tudo bem, eu sou professor universitário e sei o que é ter um salário nababesco, que me permite lautas refeições nos mais badalados restaurantes do mundo.

Cliquei no celular e minha amiga continuava offline. Seria o fuso horário, irritação por não receber mais notícias ou simplesmente ela estaria fazendo outra coisa? Credo, isso vicia! Guardei o celular no bolso e voltei a conversar com a minha esposa. Sinto a vibração… do celular, não do nosso amor que há tanto resiste. Não, não era a amiga, era a JetBlue me avisando que o embarque começaria em 10 minutos. É divertido quando uma empresa finge ser uma pessoa e se comunica com você. Não, JetBlue, não é você, sou eu. Mas obrigado pelo aviso.

Agora  de frente para o balcão da companhia, vi o sujeito que falava inglês com dicção jamesearljonesíaca (viu como fonoaudiólogo é importante?): era a mesma pessoa que recebeu a bagagem na entrada do aeroporto, que verificou a emissão do bilhete eletrônico e agora, bom, agora estava comandando o microfone e, apostei, seria a mesma pessoa que conferiria meus documentos à entrada do portão de embarque. Baixar custos é fazer os funcionários correrem de um lado para o outro. E ainda tem a vantagem de melhorar a saúde dos empregados, com esse trabalho aeróbico devidamente controlado. Will Low Cost  Firms Make America Healthy Again?

Uma pessoa em uniforme passou apressada por nós. Era o novo piloto. Um japonês de cabelo escovinha. Ele não sorria. Quem sorriria nessas circunstâncias? O autor de novelas melodramáticas que jamais serei imaginou a situação: ele desconfia que a namorada, que mora em Washington, está tendo um caso com outro piloto, não que ele seja santo, porque, afinal, ele tem um caso com uma colega em Boston e já pensaram se o piloto doente e o piloto substituto estão tendo casos com as respectivas namoradas dos colegas? Make Americans Faithful Again.

O sujeito que falava inglês nos convocou para o embarque. Fez uma brincadeira: “mas antes, por favor, paguem US$5 pela cortesia”. O senhor que estava perto de mim riu gostoso, quase a bandeiras despregadas, eu também, mas me controlei. Eu rio mesmo a bandeiras despregadas, às vezes. Faço minha esposa passar vergonha com as minhas gargalhadas. Ela diz que não, que não é tanto assim. Ela me ama. Alguns passageiros não entenderam a piada. O funcionário logo fez o reparo: “é brincadeira”. Mundo triste esse, onde tem gente que não ri e ainda processa o piadista.

Regra de bolso para turistas acidentais: reze para não ter um piloto substituto no comando do avião. Começamos a taxiar 5 minutos antes do previsto. Quando entramos no avião, um dos tripulantes passou pelo corredor contando o número de passageiros, qual em ônibus e, já que estávamos todos ali, para que esperar? Decolamos com tudo e e chegamos 10 minutos antes do previsto, com direito a várias manobras bruscas e solavancos. 

Chegamos vivos, pegamos um táxi e finalmente houve um quarto de hotel, um banho quente e uma cama confortável. Quanto pior for a viagem, melhor parecerá o hotel. Quase escrevo que minha esposa e eu “dormimos o sono dos justos”. Mas  somos ambos economistas e vocês sabem, não há justeza na teoria econômica. Economistas não vão para o Céu. 

Minha esposa, essa mulher que suporta minhas esquisitices, lembrou-me de contatar nossa amiga. Diligentemente, eu liguei o celular. Há vários e-mails me esperando, mas estou de férias. Um me chamou a atenção, e não se tratava daquele nigeriano filho de um magnata que precisa de dinheiro ir até a Suíça liberar seu dinheiro… Gente! Alguém caiu nessa? O cientista social que mora em mim responde: sim! Era um pedido da JetBlue para lhe contar o que eu estava achando desse nosso relacionamento. Respondi: desculpe-me, JetBlue, não é você, sou eu, eu sou casado e apaixonado pela minha esposa, essa mulher que voa de JetBlue comigo e ainda se diverte. Quase escrevi no e-mail: e sabe de uma coisa, estou achando esse nosso relacionamento meio abusivo! Mas vai que a JetBlue resolve me processar, né? Se no Brasil tudo acaba em samba (bons tempos, agora é sertanejo ou funk ou sabe-se lá o quê), nos EUA tudo acaba no Tribunal. Stay America Away From Court Again!

Então usei o celular e contatei nossa amiga. Ela estava online e ansiosa para saber das últimas. Descobri-me ansioso para contar. Engoli em seco. Será que estou ficando viciado nisso? Com dificuldade, resumi o resto da aventura o mais rápido que pude, xingando o corretor automático, falando para a Flávia o que eu escrevia e discutindo as sugestões dela para emendar meu texto e, gente, olha, sem frescura, mas vida online é angustiante. Ao final de tantas mensagens despachadas assim, de chofre, nossa amiga digitou:

“Só isso?”

Só.

“E o piloto?”

Não sei, mas deve estar bem. Não há nada em nenhum jornal e não recebi nenhum e-mail da companhia.

“Bom, então tchau. Beijo na Flávia”.

É, talvez eu precise reconsiderar: minhas aventuras são mesmo de matar de tédio. Make Brito fun again!

25 de julho de 2017.

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